Tenho que admitir que rock irlandês é um love affair de longa data. A musicalidade, a tradição, a dor e a paixão que os músicos irlandeses imprimem em seus trabalhos é algo a ser admirado.
Outro dia desses recebi um e-mail de Barry McCabe, um guitarrista irlandês muito interessado em mostrar um pouco do seu trabalho aos leitores da poeira Zine. Barry tomou contato com a pZ através da edição com Rory Gallagher na capa, não por acaso, seu maior ídolo.
Papo vai e papo vem e Barry me manda seu mais recente cd, Beyond The Tears, lançado de forma independente pelo próprio guitarrista. O interesse de falar a respeito da carreira desse músico promissor passou a ser maior a cada audição. O resultado do papos com Barry e um bocado da sua trajetória você confere a seguir.
"Abrir para o Rory Gallagher na sua última tour européia foi um grande momento da minha vida". Fica claro que Barry McCabe tem referências e raiz musical de sobra: “Largar meu trabalho convencional e ir tocar full time nos barzinhos de Hamburgo, na Alemanha, exatamente onde começaram banda como os Beatles e o Taste, foi também um momento inesquecível”. Comparações com Rory não incomodam Barry: “Acho legal ser comparado ao Rory. Se você ouvir minha música e sacar a forte influência que sofro dele, já estou satisfeito”, declara o músico. Quando pergunto se eles chegaram a desfrutar de uma amizade, Barry responde com uma quase palpável franqueza:
“Rory era um cara introspectivo, muito na dele mesmo. Com exceção de sua família e de seus companheiros de banda, creio que ninguém desfrutou de uma amizade mais forte com ele. Eu dei sorte, pois quando era adolescente, fui em centenas de shows dele e acabei fazendo amizade com todos seus roadies. Depois fiquei chegado do pessoal da banda e só depois fui apresentado ao Rory em si. Foi um processo gradual. Depois nos encontramos mais tarde em Hamburgo e lá senti que ele ficou impressionado de me ver tocando por lá com minha banda, talvez por estar fazendo exatamente o que ele já tinha feito muito no passado naqueles mesmos bares”.
Barry McCabe, nasceu numa fazenda em Virginia, no condado de Cavan, uma das regiões mais belas e tradicionais da Irlanda. Até hoje mora numa vila medieval das proximidades e só sai dali para fazer shows em pubs pelo Reino Unido.
Quando criança, Barry viu uma guitarra numa vitrine de uma loja de bicicletas, juntou um grana e adquiriu o instrumento. Sua primeira banda chamava-se Albatross, não por coincidência uma homenagem a um dos seu ídolos, Peter Green: “A honestidade e dor de Peter Green realmente mexeram comigo. Num momento difícil da minha vida eu passei a ouvir o Peter Green’s Fleetwood Mac noite e dia, sete dias por semana. Comprei vários livros que falavam da trajetória de Peter, virei um estudioso de sua carreira e isso me serviu de consolo nos tempos difíceis. As vezes uma música triste faz um bem danado”.
Pergunto para Barry qual foi a melhor fase do rock irlandês e ele responde enfático: “O começo dos anos 70, pois tínhamos muita coisa acontecendo por aqui com bandas como Thin Lizzy, Horslips, Rory e etc. Nessa época todo mundo queria ter uma banda e quando você não estava tocando, estava indo assistir alguma grande banda local. A música fazia parte da nossa vida”.
Quando o assunto é blues, Barry se solta ainda mais, principalmente quando conto para ele que no Brasil o estilo atrai mais a elite do que a minoria: “O blues está aí há tanto tempo que hoje ele já atingiu e influenciou todas as camadas da sociedade, passando pelo rico, pobre, branco e negro e chegou ao mainstream com nomes como Stevie Ray Vaughan. O estilo atrai quem busca por uma música pura e verdadeira. Se um cara tem grana não significa que é feliz. O blues é sobre dor, tristeza, e todos passamos por isso”. Muita gente acha que blues é sinônimo de bebedeira, mas não para Barry: “Existe uma lenda de que para você tocar blues você tem que ser um beberrão...um coração partido já basta”.
Barry já dividiu o palco com Status Quo, ZZ Top, Molly Hatchett, Walter Trout, Stan Webb, Rory Gallagher, Dr. Feelgood, Canned Heat, Ten Years After e Sweet, tendo ainda sua música executada em rádios de toda Europa, Austrália, Japão e até em alguns estados dos EUA. Para o próximo ano o guitarrista tem participação garantida no festival de Ballyshanon, organizado anualmente em homenagem a Rory Gallagher e segue firme fazendo música guiada pelo coração.
Barry McCabe – Beyond The Tears
O mais recente cd do guitarrista irlandês é do começo ao fim, uma agradável surpresa. Contando com a participação de ex-integrantes da banda de Rory Gallagher, Horslips e Mama’s Boys, Barry McCabe reuniu onze faixas nesse seu novo trabalho. O forte do guitarrista são as dolorosas baladas como “Lonely Road”, “Bye Bye Johnny – Be Good”, “I Wonder” e sua excepcional versão para “Crazy Love”, original de Van Morrison. Nas instrumentais, Barry também esbanja talento e temos aqui três delas: “Arthur”, “Catch Me If You Can” e “The Sunset Waltz”. Outro destaque é “Trouble”, situada num clima meio Free e Whitesnake das antigas. Se você curte rock com influência celta e baladas com pegada blueseira, Beyond The Tears tem que estar na sua estante. O álbum pode ser adquirido direto com o guitarrista pelo site www.barrymccabe.com
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